miércoles 29 de mayo de 2024
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Sibéria, um lugar onde tudo é grandioso, épico e absoluto

Kemerovo, Rússia - A Sibéria segue até hoje, talvez, como um enigma para a maioria dos ocidentais. Território isolado e inóspito, campo de desterro para os opositores do regime comunista nos tempos do stalinismo, vastidão branca coberta apenas de neve e de estepes infrutíferas. Esse é, em geral, o retrato desse lugar distante gravado na imaginação de quem ainda não o viu pessoalmente. Em parte também era o meu antes de conhecê-lo na companhia de jornalistas dos países BRICS, como parte do evento “BRICS Global Media Tour - Russian Edition”, promovido pela TV BRICS e pela Fundação Gorchakov, da Rússia.

Por Luiz Augusto Erthal

Descobri, no entanto, durante os dias em que estive baseado no oblast de Kemerovo, na região siberiana de Kuzbass, algo surpreendente que mudou totalmente minha visão da Sibéria. Além de conhecer de perto a grandiosidade desse território de mais de 13 milhões de quilômetros quadrados – onde caberia uma vez e meia o território do Brasil, o quinto maior do mundo em extensão – pude travar contato com a extraordinária história de conquista civilizatória que o transformou em um símbolo da resistência e da tenacidade do povo russo.

Essa saga começa na segunda metade do século XVI, depois que os russos conquistaram as terras a leste dos Montes Urais, dando início a uma ocupação que se estendeu até ao Oceano Pacífico. Eles tiveram que se adaptar a uma natureza poderosa, onde as temperaturas, no inverno, chegam a -25º C, e transformaram, no século XX, a Sibéria em uma região economicamente importante para o país e também em um bastião de defesa do país praticamente inatingível pelos inimigos.

Berço heróico

Ali, milhares de famílias se refugiaram durante a invasão nazista, ao longo dos penosos anos de uma dramática luta pela sobrevivência dos russos como povo e nação, durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto os soldados de Hitler castigavam as cidades da parte ocidental da antiga União Soviética, esse lado asiático do país oferecia abrigo aos refugiados e um apoio logístico que se revelou imprescindível para a expulsão dos invasores e a posterior derrota definitiva do nazismo, simbolizada pela marcha dos soldados soviéticos sobre Berlim. Feito que o ditador alemão não logrou alcançar em Moscou – suas tropas estancaram a poucos quilômetros da entrada da cidade, contidas pela neve e pela bravura dos defensores russos.

Enquanto os soldados combatiam no front ocidental, mulheres e homens que não podiam lutar trabalhavam incansavelmente nas fábricas da Sibéria para abastecer o Exército Vermelho de praticamente tudo. Lá se produzia desde uniformes até as armas e munições que empurraram os agressores de volta, deixando em solo russo o maior número de soldados alemães mortos durante a guerra.

Paradoxalmente, o maior memorial da vitória sobre o nazismo erigido em Kemerovo, sobre um pedestal que requer a escalada de 92 degraus para se chegar ao interior do monumento, não exalta as mortes infringidas aos alemães, mas sim uma vida do lado inimigo salva por um soldado soviético. Em uma das últimas batalhas da guerra, travada nas ruas de Berlim, o sargento do 220º Regimento de Guardas da 79ª Divisão de Infantaria, Nikolai Masalov, natural da região siberiana de Kuzbass, abandonou sua posição protegida de combate e, expondo-se ao fogo cruzado, correu para salvar uma criança abandonada em meio à refrega. Era uma menina alemã, cujos pais já haviam sido mortos na batalha. O soldado russo foi reconhecido na Alemanha – onde há um memorial do seu feito heróico no Treptower Park, em Berlim – antes mesmo de ganhar a imponente estátua em sua região natal, onde está esculpido em bronze, carregando uma criança nos braços sobre o majestoso monumento.

Esse símbolo de heroísmo é também um lugar de reverência, onde diariamente cidadãos russos sobem as escadas para fazer uma prece ou simplesmente trazer à memória o drama da guerra e das imensas perdas de vidas humanas provocadas por ela. Na manhã ensolarada em que visitamos o monumento vi ali algumas dessas pessoas, que chegavam e partiam contritas, como em uma romaria. Vi uma senhora – que, pela idade, certamente viveu os dias dramáticos da guerra -, após descer as escadas, curvando-se reverencialmente diante da estátua de Masalov. Vi dois meninos, acompanhados pela mãe, voltando do monumento. Um deles trazia nas mãos a bandeira soviética e a exibia orgulhoso, como se ainda vivesse antes da Perestroika.

Hoje a Rússia enfrenta novamente uma situação desafiadora. Diferente, é verdade, em drama e intensidade, em relação àquela da Segunda Guerra Mundial. As atividades industriais acontecem normalmente em todo o país, mas o bloqueio econômico atual certamente faz da Sibéria, neste momento, uma fonte inspiradora para superar outra vez as dificuldades que lhe são impostas. Há quem aposte, inclusive, que essa condição estaria fazendo a Rússia dar um novo salto de desenvolvimento, como aconteceu durante a luta contra o nazismo, impulsionada pela necessidade de produzir o que lhe falta.

A noite que não existiu

Partimos de Moscou para Kemerovo em um voo da Aeroflot. O avião decolou à noite, ainda refletindo os últimos raios solares. Estamos no verão russo e, por aqui, o sol só se põe, em geral, depois das 22 horas nessa época do ano. Assim que a aeronave alcançou altitude e velocidade de cruzeiro, pude ver pela janela uma fina skyline no horizonte. Imaginei que contemplava o sol poente.

No entanto, à medida que avançávamos na viagem, a linha rubra do horizonte ia se tornando cada vez mais iluminada e vibrante. Demorei um pouco para compreender que não se tratava do pôr do sol, mas sim de um alvorecer – os dias também nascem muito cedo, às vezes por volta das três horas da manhã – antecipado pela altitude do avião. Considerando o fuso horário de mais quatro horas de Moscou para a Sibéria, chegamos no aeroporto de Kemerovo efetivamente pela manhã sem ter visto, a rigor, a total escuridão da noite, como se ela não tivesse existido.

O voo, na realidade, durou quatro horas e alcançamos o território siberiano em vertiginosa rapidez se comparado, por exemplo, ao deslocamento pela lendária ferrovia Transiberiana, cuja viagem completa leva em torno de uma semana.

Às margens do rio Tom, Kemerovo é uma das principais cidades da Sibéria, assentada sobre parte das maiores reservas de carvão do mundo, o que faz dessa região uma das mais importantes, economicamente, da Rússia. É uma cidade bem arborizada, cheia de parques e jardins que no verão oferecem belos painéis florais coloridos, distribuídos ao longo de avenidas espaçosas, ladeadas por condomínios em prédios de três ou quatro andares, cujas linhas seguem uma arquitetura típica do período stalinista, de quando foram construídos.

Afastando-se da área central da cidade, que, assim como Niterói, possui pouco mais de 500 mil habitantes, surgem nos subúrbios e nas regiões periféricas pequenas casas mais modestas, construídas em lotes de terrenos também acanhados. No entanto, quase todas têm em comum, além das chaminés das lareiras, o cuidadoso aproveitamento dos quintais com hortas e estufas, onde são cultivadas verduras e legumes para consumo da própria família.

Domando a natureza

O que hoje ainda pode nos parecer distante representou, na verdade, uma verdadeira saga para ser alcançada pelos primeiros colonizadores, determinados a se apossar do território. Diferente da marcha para o Oeste norte-americano, onde, sob estímulo governamental, eles chegaram em caravanas ao longo do século XIX, a Sibéria foi sendo ocupada e, com isso, incorporada efetivamente à Rússia, por iniciativas individuais dos seus primeiros conquistadores. Ao contrário, também, dos bandeirantes brasileiros, eles não foram movidos pela ganância do ouro ou de outras riquezas naturais, mas pelo espírito desbravador e pela intenção de possuir a terra até então desabitada.

Na Galeria Tretyakov, de Moscou, existe uma sala dedicada ao pintor Ivan Shishkin (1832-1898), talvez o artista russo que melhor retratou os bosques e a natureza do seu país. Entre as telas expostas estão algumas que mostram florestas virgens com pequenos ursos negros brincando livremente. Esse foi certamente um dos cenários encontrados pelos primeiros colonizadores, que tiveram de enfrentar não apenas animais ferozes e eventuais incursões de inimigos vindos de outras regiões asiáticas, mas, sobretudo, os rigores do inverno em uma árdua adaptação do homem às condições climáticas extremas.

A história dessa conquista está bucólica e dramaticamente contada no distrito de Yashkinskiy, região rural de Kemerovo, no Tomskaya Pisanitsa, um impressionante museu histórico a céu aberto que retrata as várias fases dessa conquista, desde os primeiros povoados da Idade Média, que marcaram a chegada da civilização por ali, até o povoamento feito nos últimos séculos por ermitões que foram aos poucos se apossando do vasto território siberiano.

Trata-se de uma espécie de versão russa do Yelowstone americano, onde semanalmente milhares de pessoas, vindas das mais diferentes partes da Rússia, buscam o contato com a natureza dentro dos limites de uma área de 156 hectares ocupados pelo parque, considerado o maior museu-reserva dos Urais. Através de cuidadosas reproduções cenográficas, onde atores interpretam os papéis dos habitantes da Sibéria em diferentes estágios dessa colonização, ao longo dos últimos 500 anos, o parque é tido como um complexo de preservação da história e da cultura dos povos da Eurásia.

Milhares de pessoas, vindas de várias regiões russas, visitam semanalmente o Tomskaya Pisanitsa para fazer um mergulho histórico em um amplo teatro a céu aberto ou simplesmente passar um dia de lazer bucólico, usufruindo da infraestrutura do parque para fazer churrascos e piqueniques. Os visitantes atravessam, logo ao chegar, uma autêntica aldeia fortificada da Idade Média; passam pelas réplicas das diversas cabanas usadas pelos colonos e experimentam suas atividades do dia a dia, incluindo sessões de tiro ao alvo com arco e flecha.

Mas, além de ser um museu-reserva, o parque é um monumento mundialmente conhecido de arte primitiva e rupestre. O principal elemento desse santuário ecológico é uma grande rocha densamente coberta por desenhos dos povos primitivos, localizada acima da margem direita do rio Tom e que por isso foi batizada pelos cientistas de Tomskaya Pisanitsa (desenhos de Tomsk), dando nome ao parque.

Carvão negro sob o branco da neve

Sob a pele verde, no verão, formada pelas florestas de bosques naturais que revestem grandes extensões do território siberiano, cobertas de neve branca, porém, na maior parte do ano, escondem-se debaixo da terra enormes jazidas escuras – as maiores do planeta – de carvão mineral, uma das grandes riquezas naturais da Rússia, maior produtor e exportador global desse combustível fóssil, ainda de grande importância econômica em razão do seu baixo custo, em comparação com as demais fontes de energia.

No entanto, tirá-lo do subsolo para se obter os níveis atuais de produção, em torno de 400 mil toneladas anuais, exigiu uma história de tenacidade e superação, a exemplo da conquista da própria Sibéria. Próximo ao monumento “Em memória dos mineiros de Kuzbass”, debruçado sobre o rio Tom, um museu histórico narra essa conquista que conjuga a determinação dos empreendedores com a motivação ideológica dos mineiros. Reproduções de documentos e jornais da época registram a imigração de levas de trabalhadores norte-americanos ao longo dos anos 20 do século passado. Eles eram arregimentados, ironicamente, nas fileiras do Partido Comunista dos Estados Unidos e partiam para os termos mais remotos da recém criada União Soviética, motivados pelo ideal de ajudar a construir o sonho socialista de uma sociedade próspera e igualitária.

Em entrevista coletiva aos jornalistas dos países BRICS, o governador de Kuzbass, Sergey Tsivilyov, disse que a região tem um plano estratégico para os próximos 50 anos. Durante esse tempo, de acordo com o governador, “Kuzbass será um exemplo para o mundo de como lidar adequadamente com o carvão para que ele se torne uma fonte limpa de energia para a construção de cidades verdes, como Kemerovo”.

Em visita à mina de Chernigovskiy, uma das cerca de 50 grandes fontes de extração de carvão da Sibéria, foi possível constatar a preocupação ambiental da indústria extrativista russa. O tratamento do minério é feito ali, por exemplo, de forma a não lançar rejeitos poluídos nos rios. Para isso, toda água usada no beneficiamento do carvão é reutilizada dentro do próprio processo industrial.

A mina de Chernigovskiy, em Kemerovo, é reconhecida como a primeira empresa da Rússia a inaugurar uma fábrica capaz de processar dois tipos diferentes de carvão simultaneamente – carvão de coque e carvão a vapor. Ela explora as jazidas de Kedrovsko-Krohalevsky, cujas reservas serão capazes de produzir por mais 30 anos.

No entanto, estima-se que haja carvão na Sibéria para os próximos 400 anos. Não se sabe se até lá os combustíveis fósseis ainda estarão presentes em um mundo que anseia cada vez mais por fontes de energia limpas e renováveis, mas isso dá uma perfeita dimensão de um lugar onde tudo é grandioso, épico e absoluto.

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