miércoles 29 de mayo de 2024
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Um “cangaceiro” entre os revolucionários de Fidel e Che

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Jornalista brasileiro, Aroldo Wall se uniu a Masetti, García Márquez e Rodolfo Walsh na fundação da Prensa Latina, desafiando a mídia hegemônica norte-americana

Por Luiz Augusto Erthal

Ao descerem da Sierra Maestra, Fidel Castro, Che Guevara e seus companheiros de guerrilha desencadearam um processo revolucionário que transformaria não apenas as estruturas políticas e econômicas de Cuba, mas levaria a todo continente americano a guerra da informação. Um grupo de jornalistas revolucionários, integrado por ícones da imprensa latino-americana, como os argentinos Jorge Ricardo Masetti e Rodolfo Walsh, e o colombiano – futuro prêmio Nobel de Literatura – Gabriel García Márquez, entre outros, funda em Havana a primeira agência de notícias de caráter anti-imperialista. A eles iria se juntar, ainda nos primeiros meses, o jornalista brasileiro Aroldo Wall, alcunhado por seus camaradas de “Cangaceiro”, cuja memória é reverenciada até hoje em Cuba.

Em junho de 1959, cinco meses após a conferência internacional de imprensa convocada por Fidel Castro que reuniu em Havana cerca de 400 jornalistas em janeiro daquele ano para conhecerem de perto o novo processo político de Cuba, foi criada a agência cubana de notícias Prensa Latina. Fruto imediato daquele evento, batizado pelo líder revolucionário como Operação Verdade, o novo canal informativo surge não só para quebrar o monopólio continental, existente então, das agências norte-americanas Associated Press (AP) e United Press International (UPI), como também para integrar a América Latina em uma rede jornalística independente e anti-imperialista.

Essa integração adquire ainda mais efetividade com a participação – ainda pouco conhecida no Brasil – de um jornalista brasileiro na fundação e consolidação da Prensa Latina. Morador de Niterói, Aroldo Wall trabalhava no diário Última Hora, do Rio de Janeiro – o ousado jornal popular de linha trabalhista que defendeu praticamente sozinho os governos Getúlio Vargas e João Goulart, contra uma orquestrada mídia hegemônica nacional de direita -, quando foi convidado a participar do projeto revolucionário cubano de comunicação.

O jornalista argentino Jorge Ricardo Masetti, que escalou, ainda em meio ao fogo dos combates, a Sierra Maestra para mostrar ao mundo as ações da guerrilha que culminaram na vitória definitiva da Revolução Cubana, dirigia, sob orientação e inspiração diretas de Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, a montagem da primeira agência internacional de notícias que iria desafiar o sistema de propagação de fake news, transmitidas àquela época pelos cabos telegráficos submarinos – um desafio gigantescamente maior para levar as notícias primeiramente aos veículos de imprensa e daí ao público se comparado com a facilidade dos recursos da comunicação digital direta e instantânea dos dias de hoje.

Masetti reuniu um time de jornalistas de primeira linha, que contou, ainda nos anos iniciais da Prensa Latina, com profissionais de imprensa do nível do colombiano Gabriel García Márquez, que participou pessoalmente da Operação Verdade, entre outros expoentes (a agência continuaria agregando, nos anos seguintes, nomes que se tornaram também expressivos não só na imprensa, como na literatura, como o uruguaio Eduardo Galeano, por exemplo). Havia ainda, na formação original, representantes de vários países latinoamericanos, como o também argentino Rodolfo Walsh, um dos ícones da imprensa livre do continente, mas a participação, desde a primeira hora, de um jornalista brasileiro demonstrava o desejo de integração continental daquele projeto jornalístico, introduzindo dentro do raio de ação da nova rede de notícias o único país de língua portuguesa das Américas.

Ademais, o Brasil se encontrava, então, dentro de uma perspectiva libertária não muito distante daquela dos cubanos, alimentando, também, o sonho de independência dos grilhões do imperialismo norte-americano, sendo, assim, um espaço político e jornalístico importante para a atuação da agência. O sonho trabalhista de criação de uma civilização justa e autônoma no Hemisfério Sul avançava fortemente no país, inflado pelos ventos do nacional-desenvolvimentismo e das conquistas sociais e trabalhistas de Getúlio Vargas e, mais tarde, do governo João Goulart. O golpe militar de 1964, com a deposição de Jango e a ruptura do projeto trabalhista, também cobrariam de Aroldo Wall o preço de ter que abandonar o seu país para não ser massacrado pela repressão feroz da ditadura que perdurou até 1988. Ele, então, se refugia em Cuba, onde assume uma posição de destaque na estrutura da Prensa Latina até morrer naquela que se tornou a sua segunda pátria, em 1994.

Brisas da Guanabara

Nascido na pequena cidade fluminense de Cachoeiras de Macacu, ao pé da serra que leva a Nova Friburgo, em 12 de dezembro de 1929, Aroldo Wall foi viver em Niterói, a então capital do Estado do Rio de Janeiro. Estudou línguas neolatinas e ingressou no jornalismo, atuando na vibrante redação carioca do jornal Última Hora, criado por Samuel Wainer no início dos anos 50 e que se transformou no principal porta voz do trabalhismo de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, cuja escalada política apontava na direção de um “socialismo moreno”, como definiu Brizola, interrompida pelo golpe de estado de 1964, fomentado pelo governo norte-americano.

A travessia diária de barca em direção ao trabalho, no Rio de Janeiro, era embalada não só pela marola e pelas brisas da Baía de Guanabara, que separa as duas cidades, mas também por um colóquio cotidiano com o colega de redação Pinheiro Júnior, outro morador de Niterói e destacado jornalista fluminense, com passagem pelos principais jornais da então capital federal (a transferência da sede do governo brasileiro do Rio para o Planalto Central aconteceria em 1960, com a inauguração de Brasília).

“O velho (e inesquecível) companheiro Aroldo Wall era quase um mistério. Apareceu na redação da Última Hora, da [rua] Sotero dos Reis, eu diria, como um visitante. Então eu o conheci. Era chefe de reportagem e imaginei que estava ganhando um novo trunfo para o dia a dia da informação. Mas logo descobri que AW tinha maiores qualificações, inclusive texto quase irretocável. Vi-o transitar pelo segundo caderno (de amenidades) e logo depois alçado à copidescagem do jornal. E daí, eventualmente, à Chefia de Reportagem”, recorda Pinheiro Júnior, hoje com 90 anos.

Com um domínio fluente do inglês, Aroldo Wall também foi bastante empregado pela Última Hora em coberturas e entrevistas envolvendo a presença de personalidades estrangeiras no Brasil. Aliás, a sólida formação intelectual e a cultura literária eram aspectos marcantes de Wall, como destaca Pinheiro Júnior:

“AW era um espírito afável e não escondia a cultura literária com primazia para o conhecimento de escritores americanos, citando sempre William Faulkner, John Dos Passos, Ernest Hemingway e outros que ele parecia ter lido as obras completas.”

Com Hemingway, por sinal, Aroldo Wall tinha uma afinidade ainda maior para além da literatura – a atração por Cuba. Ele passou a ser visto com menos frequência na redação da Sotero dos Reis. Foi então que Pinheiro Júnior soube da colaboração do colega na fundação da Prensa Latina. “Partiu depois às pressas e escondido para Cuba tão logo a ditadura implantou-se no Brasil. Depois disso encontrei-o duas vezes no Rio de Janeiro e em Niterói, acompanhando viagem de Fidel” [após a redemocratização brasileira], relata.

Teletipos libertários

A primeira representação da Prensa Latina no Brasil havia sido instalada no início de 1960 em um conjunto de salas do moderno Edifício Avenida Central, na Avenida Rio Branco, Centro do Rio de Janeiro. O cubano José Prado e Aroldo Wall comandavam o escritório da agência, cuja presença no país seria ampliada poucos meses depois com a contratação do jornalista Paulo Canabrava Filho como correspondente em São Paulo.

A agência já estava presente em boa parte dos países da América Latina, desde o México até o Chile e a Argentina, mas esbarrou na burocracia brasileira para se estabelecer no país. Em seu livro “Gabriel García Márquez – Pasaje a La Habana”, Ciro Bianchi Ross reproduz o relato feito por Rodolfo Walsh, ainda em 1959, sobre a escala de dois dias que deveria fazer no Rio de Janeiro, durante uma viagem à América do Sul, visando à instalação do escritório da Prensa Latina na cidade, com o arrendamento de um canal de teletipos e a designação do correspondente-chefe. Ao invés de 48 horas, ele acabou tendo que permanecer 48 dias no Brasil para cumprir a missão e desabafou:

“As dificuldades que surgiram foram tão absurdas que não tiveram explicação no quadro idílico da liberdade de imprensa, da livre concorrência e de outras fantasias. A burocracia brasileira é a mais imaginativa que já conheci: sempre faltava alguma coisa, uma vírgula, um ‘carimbo’, até um exame de urina e uma amostra de sangue. A máquina governamental estava repleta de corrupção e atrasos de proporções kafkianas.”

Porém, os desafios da agência no Brasil não esbarravam apenas na burocracia. Paulo Canabrava relembra a difícil missão que recebera ao ingressar na Prensa Latina de, além de exercer suas funções jornalísticas como correspondente, levar os teletipos libertários da PL para as redações de uma imprensa vassala dos interesses norte-americanos. Ele relata:

“Tarefa difícil. O único contrato assinado em São Paulo foi com Ruy Mesquita, um dos donos do jornal conservador O Estado de S. Paulo. Publicou especiais, principalmente assinados por intelectuais. Outros jornais, como Diário de São Paulo, Última Hora (do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Curitiba e Porto Alegre) e Folha de São Paulo, além do Terra Livre e outros do Partido Comunista, adquiriram o PL especiais, as reportagens ilustradas.

O Diário de SP, de Assis Chateaubriand, dono da maior rede de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão já vista, tinha jornais e emissoras de rádio em 20 estados. Seus veículos mostraram o mundo visto pelas agências AP, UPI e France Press.”

Gradativamente todos os países da América Latina, com exceção do México, foram rompendo relações diplomáticas com Cuba. Os escritórios da Prensa Latina eram não raro alvos de batidas policiais e perseguições. No Brasil, antes mesmo da ditadura militar de 1964 romper relações com a ilha, Juscelino Kubitschek inicia, ao apagar das luzes do seu governo, o processo de expulsão do cubano José Prado, que chefiava o escritório do Rio de Janeiro junto com Aroldo Wall. O processo foi interrompido depois da posse de Jânio Quadros, que concedeu uma histórica entrevista ao diretor geral da agência, Jorge Ricardo Masetti.

Em abril de 1961, Prensa Latina é responsável por trazer praticamente com exclusividade as notícias do malogrado ataque coordenado pela CIA e pelas forças armadas norte-americanas a Cuba. As informações confiáveis sobre a invasão da Baía dos Porcos – ou “Batalha de Playa Girón”, como é chamada pelos cubanos – e a consequente derrota e humilhação da tropa de mercenários que intentou derrubar o regime socialista da ilha e matar Fidel Castro, fizeram dos correspondentes da Prensa Latina no Brasil, como recorda Canabrava, hoje editor do site jornalístico “Diálogos do Sul”, as principais fontes de informação para jornalistas, intelectuais, sindicalistas e estudantes brasileiros.

A frustrada invasão registrou, por sinal, uma das mais brilhantes páginas do jornalismo investigativo envolvendo a equipe da Prensa Latina, notadamente o argentino Rodolfo Walsh. Masetti havia instalado na agência uma sala especial de teletipos para captar o material diário dos serviços de imprensa do mundo inteiro. Entre os rolos de despachos noticiosos, um deles, proveniente da Tropical Cable, filial da All American Cable na Guatemala, chamou atenção por conter um texto longo e denso, escrito em uma chave complexa. Walsh, baseado em alguns manuais de criptografia comprados em um sebo de Havana, decifrou a mensagem: um informe minucioso sobre os preparativos de um desembarque armado em Cuba, que estava em curso na fazenda Retalhuleu, um antigo cafezal no norte da Guatemala. A Prensa Latina havia descoberto o plano da invasão da Baía dos Porcos antes que acontecesse.

Porém, em agosto do mesmo ano, a pequena equipe da agência cubana no Rio de Janeiro  e em São Paulo viveria o desafio de noticiar para o mundo a primeira crise institucional vivida por eles no Brasil, ao mesmo tempo em que enfrentavam a ferocidade golpista da direita brasileira. Poucos dias após haver condecorado Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais importante honraria concedida pelo governo brasileiro, o presidente Jânio Quadros renuncia ao cargo, sete meses após sua posse. Um veto da cúpula militar à posse do vice-presidente eleito, João Goulart, é a senha para um golpe de estado, que só é abortado graças ao movimento que ficou conhecido como Cadeia da Legalidade, promovido pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que levantou o povo gaúcho em armas e conclamou o restante do país à resistência através de uma cadeia de rádios.

No Rio de Janeiro, já transformada em cidade-estado com a transferência da capital federal para Brasília, o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, desencadeia a repressão contra comunistas, trabalhistas e socialistas, em apoio ao golpe contra a posse de Jango. Para não ser preso, José Prado retorna às pressas para Cuba, deixando Aroldo Wall no comando do escritório da Prensa Latina. A renúncia de Jânio encontrou João Goulart em visita oficial à China. O lento e cauteloso regresso de Jango ao Brasil, pela rota de Paris, a mais longa, tem em Montevidéo a sua última escala. Aroldo Wall recomenda a Canabrava trabalhar de forma coordenada com o escritório da agência no Uruguai para trazer os relatos da chegada de Jango ao país e as negociações feitas em Montevidéo para que ele assumisse a presidência com poderes limitados, dentro de um regime parlamentarista que seria depois derrubado em um plebiscito.

No entanto, nem Aroldo Wall, nem Jango, nem a democracia brasileira teriam a mesma sorte três anos depois, em abril de 1964, quando os mesmos golpistas de 1961, agora apoiados militarmente pelos Estados Unidos, finalmente conseguiram depor o governo trabalhista e instalar uma ditadura sangrenta que dominaria o Brasil por 25 anos. Seguindo o mesmo destino de milhares de brasileiros, Wall busca o caminho do exílio. Ele se refugia inicialmente na casa de Canabrava, em São Paulo, e de lá consegue chegar a Cuba via Uruguai.

Com Gabo em Havana

Quando Aroldo Wall desembarcou na ilha, escapando da repressão da recém instalada ditadura militar no Brasil, Cuba já havia superado os momentos de maior tensão pós-revolucionária: o ataque armado dos mercenários financiados por Washington, em 1961, na Baía dos Porcos, e a crise dos mísseis soviéticos instalados em território cubano, que deixou por alguns dias o mundo em suspense absoluto, às portas de uma guerra total entre Estados Unidos e União Soviética, em 1962.

Mesmo assim, o clima em Havana ainda era de uma permanente prontidão, simbolizada por barricadas que, espalhadas pela cidade, representavam o espírito de resistência do povo cubano, empenhado àquela altura na consolidação da revolução. As tropas revolucionárias podiam ser vistas em constantes patrulhas pelas ruas. Essa construção passava fundamentalmente pela batalha da informação, onde a Prensa Latina representava a mais importante trincheira.

Ao chegar em Havana, Wall foi acomodado em um pequeno apartamento no vigésimo andar do Edifício Retiro Médico, no bairro Vedado, que passou a dividir com ninguém menos do que um novo colega de redação colombiano que viria a se tornar ilustre como um dos maiores escritores latinoamericanos: Gabriel García Márquez. Após a Operação Verdade, Gabo havia sido designado como correspondente em Bogotá. Mas em meados dos anos 60 passou uma temporada de seis meses trabalhando diretamente em Havana, onde se encontrava quando da chegada de Aroldo Wall.

O prédio, localizado na esquina da Avenida 23 – a mítica “Rampa habanera” – com a rua N havia sido inaugurado em 1957 e pertencia à Faculdade de Medicina. Além dos apartamentos, que hospedavam os jornalistas que vinham de outros países, Prensa Latina havia alugado todo o quinto andar, onde foi montado o escritório-sede da agência. Ficava a 300 metros do Malecón, a avenida litorânea da capital cubana em cuja muralha bate impetuosamente o mar do Caribe.

Ali, a jornada era dura. “Trabalhávamos a cada minuto, dia e noite”, relembra Gabo nessas memórias. Não raro ficava na redação até às cinco horas da manhã e, às nove, já estava sendo chamado novamente à sede da Prensa Latina.

Em seu livro “Vida de Gabriel García Márquez”, Gerald Martin relata que cada um dos companheiros dispunha, no apartamento comum, de um quarto, uma sala e um terraço com vista para o mar. As refeições, segundo o autor, eram feitas pelos dois no restaurante La Cibeles, que ficava no térreo. Porém, o colombiano lembra, ainda, no livro autobiográfico “Conversações com Gabriel García Márquez”, editado por Gene H. Bell-Villada, dos meses em que morou com Aroldo Wall e que também era comum almoçarem no restaurante Maracas, a uma quadra e meia dali. No caminho para o almoço passavam, na esquina, pela loja Indochina, uma das suas preferidas em Havana. Outros redutos dos jornalistas eram os restaurantes Wakamba e Karabali.

Sobre a convivência daqueles dias com Gabriel García Márquez, Aroldo Wall contaria depois que o companheiro passava horas no terraço, ensimesmado, em total silêncio, contemplando a paisagem, pensando talvez no enredo de algum dos grandes romances que escreveria mais tarde.

“Viva a poesia! Morram os poetas!”

Gabriel García Márquez não foi o único grande escritor – embora tenha sido provavelmente o mais notável – com quem Aroldo Wall conviveu na Prensa Latina. Sua paixão pela literatura, em especial pela norte-americana, conforme relatado por Pinheiro Júnior, certamente se estendeu sobre outras páginas, sobretudo latinoamericanas, nos contatos que o trabalho na agência lhe proporcionou com grandes cultores da prosa e da poesia em língua espanhola.

Um deles, o poeta peruano Hildebrando Pérez Grande, ganhador do prêmio de literatura da Casa de las Américas, colaborador de Prensa Latina desde os primeiros anos de atividades da agência, relembra a figura de Aroldo Wall em seu escritório de trabalho, na redação, quando o recebia de forma efusiva e descontraída, fazendo-lhe uma provocação à sua condição de poeta:

“Sem sair da mesa, envolto numa nuvem de notícias e na fumaça de seus essenciais Gitanes, ele me recebia no escritório de forma desafiadora: ‘Viva a poesia! Morram os poetas!’”.

A lembrança do colega brasileiro veio dentro de uma nota de saudação feita por Hildebrando Pérez por ocasião do 63° aniversário da Prensa Latina, há dois anos. O papel da agência, desde aquela época romântica de convivência destemida entre figuras como Ricardo Masetti, Rodolfo Walsh, Gabriel García Márquez e Aroldo Wall, entre outros, até os dias cibernéticos atuais, foi enfaticamente destacado pelo poeta-jornalista peruano:

“Nestes dias em que prevalece a espantosa tecnologia digital, a Prensa Latina, seguindo os passos dos anos 60, continua a ser a voz dos sem voz, a ótica e a versão que enfrenta a hegemonia dos meios de comunicação. Divulga a verdade dos fatos, contrariando assim o monopólio informativo das corporações capitalistas que manipulam as notícias de forma perversa para preservar o poder do discurso neocolonial.”

Jorge Luna, atual Diretor de Comunicação Social da Prensa Latina, que também conviveu com Aroldo Wall, pinta um retrato afetivo do colega brasileiro, dando uma ideia da sua real dimensão e da presença ainda viva de sua memória, atravessando várias gerações de jornalistas da agência:

“Aroldo, que os da sua geração chamavam de Cangaceiro, era muito perspicaz, analítico, estudioso, incansável. Ele questionou tudo. Seu caráter afável lhe rendeu o amor e o respeito de várias gerações de prensalatineiros. Fez excelentes coberturas no Brasil, Peru, Angola e França, entre outros lugares. Seu prestígio transcendeu a agência, que – após sua morte – instituiu a Ordem Aroldo Wall, outorgada àqueles colaboradores que completam 30 anos de atuação destacada na PL, um reconhecimento semelhante ao da Ordem Jorge Ricardo Masetti, de nosso fundador. Sentimos falta dele.”

Desde que chegou a Cuba, Aroldo Wall ocupou diversos cargos na Prensa Latina. Foi correspondente-chefe da agência na França, Portugal e Peru; enviado especial ao Brasil, Uruguai e Angola, contribuindo para a formação de novas gerações de jornalistas. Na década de 1980, integrou o júri dos principais prêmios de jornalismo concedidos pela Prensa Latina, como o Prêmio José Martí de Jornalismo Latino-Americano e o Prêmio Glauber Rocha, entre outros. Também foi chefe do Departamento de Análise, de 1984 até sua morte, em 18 de março de 1994.

Aroldo foi casado com a escritora e jornalista cubana María Elena Llana, também colaboradora da Prensa Latina e que, em 2023, recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba. Tiveram dois filhos, Ernesto, que mora em Havana, e Anabella, que vive no Brasil. Em 1999, Aroldo Wall foi homenageado pela Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro com a medalha Pedro Ernesto “Pós Morten”, recebida por suas irmãs Yara e Virginia Wall. A iniciativa partiu do líder do PDT na Câmara, vereador Lysâneas Maciel, e fez parte das comemorações dos 40 anos da Prensa Latina.

Admirado pelos amigos, reverenciado até hoje pelos companheiros de luta remanescentes, mas também pelas novas gerações de jornalistas cubanos, Aroldo Wall representou uma contribuição do melhor do jornalismo brasileiro à construção dessa agência que há 65 anos segue desafiadoramente como um farol da verdade e do combate às fake news em nível global, mas sobretudo para a América Latina.

Uma cidadela socialista no Brasil

Niterói, a cidade escolhida por Aroldo Wall para viver no Brasil até migrar para Cuba, é considerada uma cidadela trabalhista e socialista. Foi onde nasceu, em 1922, o Partido Comunista do Brasil. Abriga a maior universidade brasileira, a Universidade Federal Fluminense (UFF), onde Wall estudou, e desde o fim da ditadura militar, em 1988, não conheceu até hoje um governo municipal de orientação de direita, sendo administrada desde então pelo PDT de Brizola e pelo PT de Lula.

Em 1992, o então prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT) fomentou uma estreita aproximação da cidade com Cuba. Realizou um evento cultural chamado “Encontro com Cuba”, com a presença de um grande número de artistas e intelectuais cubanos; inaugurou a Praça José Martí em homenagem ao herói da independência de Cuba e inspirador da Revolução Cubana; e implantou de forma pioneira no Brasil o projeto “Médico de Família”, inspirado no modelo cubano de saúde pública, criado após a revolução. Em 1999, Fidel Castro veio pessoalmente a Niterói inaugurar um dos módulos do Médico de Família, no Morro do Estado, que hoje é adotado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) do governo brasileiro como padrão para todo o país.

Em janeiro deste ano, o jornal TODA PALAVRA, de Niterói, participou, a convite da Prensa Latina, como único representante brasileiro da Nova Operação Verdade, em Havana. Esta matéria é uma homenagem do jornal à memória de Aroldo Wall e uma renovação da aliança do jornalismo brasileiro e niteroiense com a causa da verdade, contra as fake news do neocolonialismo.

Jornalistas tornam a Operação Verdade permanente

Em janeiro de 2024, 65 anos depois da histórica conferência de imprensa convocada por Fidel Castro, Prensa Latina – em parceria com a rede libanesa de imprensa Al Mayadeen – realizou, em Havana, um evento denominado Nova Operação Verdade. Estiveram reunidos jornalistas de 34 países de todos os continentes, que denunciaram as novas fake news propagadas pela mídia hegemônica imperialista e pelas redes sociais, envolvendo questões como o bloqueio econômico a Cuba determinado pelos Estados Unidos há mais de 60 anos, a guerra da Ucrânia provocada pelo cerco da OTAN à Rússia e o genocídio do povo palestino em Gaza perpetrado pelas forças de Israel.

Ao final do encontro, os jornalistas presentes deliberaram que a Operação Verdade deve se transformar em um movimento permanente da imprensa livre contra as fake news e a desinformação a nível global. Representando o jornal TODA PALAVRA, o editor Luiz Augusto Erthal esteve presente como delegado brasileiro e realizou a única cobertura jornalística do evento em língua portuguesa. Leia a íntegra dessa matéria em https://www.todapalavra.info/single-post/ecos-de-uma-operação-jornalística-em-defesa-da-verdade.

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